Enquanto a Polícia Civil tenta esclarecer a série de homicídios dos últimos meses no Complexo da Ititioca, procurando localizar e prender traficantes, que disputariam o poder na região que estariam por trás dos assassinatos, os criminosos estão com livre acesso à rede mundial para zombar, na forma de funks (os chamados “proibidões”), do trabalho de investigação e repressão. Nas letras dos funks os criminosos que atuam na localidade desafiam a polícia e ainda divulgam o nome de comparsas pela Internet.
Como A TRIBUNA publicou na edição da última quinta-feira (dia 4), MCs (ou criminosos se passando por eles) se identificando como “Orelha” e “Didô”, por exemplo, estão cantando em verso e prosa a ação do tráfico na Ititioca na internet com faixas do tipo: “40 anos de Comando Vermelho”, “Alemão, tu vai cair”, “É a Boca do Arará”, “Faixa de Gaza”, “Mangueira é a Cracolândia”, “O bonde tá naquele pique”, “Prá acabar com a firma do rei tem que matar todo mundo”, “Tá aberta a temporada de caça aos ADA”, e “União Ititioca-Caramujo”, entre outras. Todo material de apologia explícita ao crime permanece na Internet, assim como os criminosos que o criaram os vídeos seguem nas ruas. A titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), Helen Sanderberg, revelou ontem que a especializada está analisando o material divulgado para checar se MC Orelha é de fato o autor e cantor dos funks pró-Comando Vermelho.
“Na Internet a responsabilidade é de quem produz o vídeo. Estamos checando isso em relação a MC Orelha, mas sabemos que muitas pessoas se aproveitam do trabalho corretamente produzido por seus ídolos, adulterando-os para letras de apologia ao crime, os chamados proibidões. No ano passado o MC Didô e mais cinco, muito conhecidos entre os apreciadores do funk, chegaram a ser indiciados por apologia ao crime (artigo 287 do CP), incitação ao crime (artigo 286), e associação para o tráfico (artigo 33 parágrafo 2°). Na DRCI alegou e comprovamos que seu verdadeiro trabalho foi alterado por outras pessoas que lançaram o conteúdo modificado na Internet. O que está sendo apurado é quem são os autores. O mesmo vamos fazer em relação a MC Orelha. Na especializada destacamos um policial apenas para fazer a chamada ronda virtual, que passa o dia checando esses materiais”, explicou Helen.
Enquanto isso, a 78ª DP (Fonseca) e 79ª DP (Jurujuba) realizam o trabalho de levantamento para esclarecer os crimes ocorridos no Complexo da Ititioca, pelo menos nos últimos três meses, envolvendo pelo menos nove vítimas. Entre elas estão o assassinato do segurança patrimonial Carlos Henrique Costa, de 42 anos, torturado e executado com tiros de pistola calibre 45, na noite da última terça-feira (dia 2), entre na entrada da comunidade do Atalaia. Com o mesmo padrão também foram mortos, num intervalo de menos de 24 horas entre os dias 24 e 25 de fevereiro, Daniele Ferreira Basílio, 24, e Bruno Marcílio, 25, respectivamente na Estrada do poço Largo, e Estrada Pastor Erasmo Braga, no Sapê.
Mesmo antes dos assassinatos cometidos esse ano, a polícia já estava investigando um triplo-homicídio, ocorrido dentro de uma residência, ao lado onde o corpo de Daniele foi encontrado, no dia 17 de novembro do ano passado, quando o eletricista Djalma da Conceição, de 46 anos, e seus dois filhos, de 25 e 19 anos, foram mortos a tiros. Os registros de assassinatos no Complexo da Ititioca não chegam a ser uma novidade na crônica policial da cidade. Em fevereiro de 2006, há quatro anos, cinco jovens (sendo três menores) foram mortos a tiros na região. Na época a polícia já atribuía a chacina a uma sangrenta disputa pelo controle de venda de drogas. As vítimas tinham 25, 22, 15 (duas vítimas), e 13 anos de idade.