Livros mais escassos em Niterói

Geovanne Mendes –

Todos os setores da economia têm sofrido com a crise financeira que assola o país e em Niterói não é diferente. Na cidade é observado o fechamento de estruturas comerciais que contam um pouco da história do niteroiense: lanchonetes, bares e restaurantes geralmente são os que sofrem impacto direto com a falta de dinheiro da população, só que outros setores também agonizam diante a crise e um deles vem causando tristeza na cidade. É o caso da livraria Gutenberg, que há 40 anos mantém uma loja na Rua Moreira César, em Icaraí, e que nesta segunda fechará uma de suas lojas, a maior. O aluguel de R$21 mil, somado aos custos que aumentam a cada dia, como energia elétrica, condomínio e IPTU tornaram impraticável, para os seus proprietários, a manutenção do espaço, sendo obrigados a deixar a loja-vitrine e ocupar uma pequena loja, que já mantinha, no interior do Shopping 211.

Mas o que levou a única livraria da zona sul da cidade a passar por uma crise financeira jamais vista antes? A falta de clientes é a explicação mais acertada, já que com a crise do estado muitos funcionários públicos que residem na cidade estão deixando de investir em livros, relegando a leitura para segundo plano.

Recluso e evitando falar sobre o assunto, o tradicional livreiro e proprietário da Gutenberg, Antônio Gomes Eduardo, disse em uma das poucas entrevistas que, apesar de se desfazer da loja principal, a livraria continuará com o seu grande acervo, com cerca de 20 mil livros, acomodados em um grande depósito. Segundo ele, os clientes estão aproveitando a promoção de 40% de desconto com a queima de estoque. Uma alternativa para equilibrar as contas.

“Niterói é uma cidade de servidores públicos, que estão sem receber ou com salários atrasados. Assim, a compra de livros acaba cortada das despesas desses moradores, ao mesmo tempo em que a concorrência da internet e a venda de livros em lojas de varejo e até em supermercados atrapalha os negócios das livrarias”, lamentou Antônio.

Amigo da livraria Gutemberg, o diretor da Editora da Universidade Federal Fluminense (Eduff), Aníbal Bragança, lamenta as dificuldades vividas pela empresa que tanto contribuiu para o crescimento intelectual e econômico da cidade. E aponta as edições on-line, os chamados E-books, como uma grande alternativa para acompanhar a modernização humana e andar junto à sociedade, que consome com muito vigor os produtos disponibilizados na grande rede de computadores.

“Estou muito triste, a Gutenberg é a história viva da cidade e tenho a certeza de que o Antônio irá passar por cima de todos estes problemas. Aqui na Eduff estamos apostando em e-books, hoje já são cerca de 100 títulos publicados na internet e as pessoas podem ler em casa nos computadores ou até mesmo nos smartphones. Sem dúvida é hoje um grande mercado ainda a ser explorado. Acredito também que muita gente gosta de ler os livros físicos, esse público não morrerá jamais, mas precisamos dar atenção ao novo público”, analisou Bragança.

Outro grande nome no meio literário da cidade é a Livraria Ideal, que junto à Gutenberg, sobrevive há 40 anos no mesmo ponto. Na Ideal, o foco são os livros usados, o chamado Sebo, procurados por pessoas de todas as idades, desde alunos de escolas públicas até mesmo doutores, que buscam livros específicos para os seus estudos. Orgulhoso do seu acervo de cerca de 30 mil livros, Carlos Mônaco, de 75 anos, só perde o sorriso quando o assunto é a crise e fechamento de uma loja da Gutenberg. Segundo ele, a arte, cultura e educação devem muito a espaços como a Ideal e a Gutenberg e ver a coirmã da zona sul passando por problemas financeiros o entristece profundamente.

“Fiquei extremamente emocionado e triste quando soube que a Gutenberg passava por dificuldades e iria fechar uma loja. Quero muito acreditar que isso será passageiro e que em breve eles irão sair desta situação. A história da cidade passou por ali, muitos eventos culturais e artísticos tiveram como inspiração o local”, comentou Mônaco.

Novos Sonhos
Na cidade existem cerca de seis editoras, mas é nos autores, com novas ideias e muitos sonhos que o setor parece se revigorar. Alheia a crise, a jornalista e escritora Débora Sader, de 32 anos, optou por publicar uma versão digital do seu primeiro livro de ficção científica.“A leitura é de extrema importância na formação dos jovens, na questão da compreensão textual e capacidade de desenvolver uma boa escrita. Percebo nos jovens e adultos um grande desinteresse pela leitura e acredito que isso esteja atrelado aos fatores econômicos. Pois o valor final de um livro impresso é caro, mas também acho que está ligado à questões culturais, pois o nosso país investe pouco em educação e cultura. 1 - DEBORA SADER (2)Em contrapartida vejo a opção do livro digital, como uma alternativa viável e promissora, para quem gosta ou não de ler. As pessoas desenvolvem o interesse e têm a oportunidade de ler livros com custo muito mais baixo e de fácil acesso. O mercado dos e-books só tende a crescer e acredito nessa expansão. Para o autor também se torna uma alternativa melhor”, explicou a niteroiense, autora do livro ‘A Última Chance: O Início de uma Nova Era’, publicado de forma independente no Clube de Autores e na Saraiva online.

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