CPI dos cemitérios pode levar ao impeachment de Nanci

Anderson Carvalho –

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que vai apurar suposto desvio de arrecadação em cemitérios de São Gonçalo, instaurada na última terça-feira, será instalada hoje na Câmara Municipal. Os vereadores que assinaram o pedido de instauração da CPI, em entrevista coletiva ontem na Casa, apresentaram vídeos com o estado de abandono dos cemitérios municipais e denúncia da ex-coordenadora dos espaços, Paolla Oliveira, de que a primeira-dama, Eliane Nanci, cobrava propina. Os parlamentares ainda acusaram membros do governo de fazer pressão para que a Comissão não fosse instaurada.

Participaram da coletiva os vereadores Sandro Almeida (PHS), Natan (PSB), Vinícius, Bispo Salvador Soares (ambos do PRB), Jalmir Júnior (PRTB), Gilson do Cefen (PR), Maciel (PTN), Professor Paulo (PCdoB) e Lucas Muniz (PTN). Ontem, durante a sessão, estavam discutindo a composição da CPI, que será conforme a proporcionalidade da representação dos partidos na Casa.

“A pressão é muito grande. Às 22 horas de ontem tinha secretário do Executivo aqui, fazendo o quê eu não sei. Estamos empenhados em fazer um trabalho para dar resultado. Fomos na manhã desta quarta-feira ao Cemitério do Pacheco, onde eu fiquei assustado. Você olha e tem mato em tudo quanto é lado e osso também. Tudo largado. As pessoas que trabalham lá recebem mal pelo que fazem. Não recebem insalubridade nem luva para trabalhar. Às vezes tem que tirar do bolso para comprar o equipamento para poder trabalhar”, contou Lucas.

“Há indícios de grave desvio de recurso público. Crime de improbidade. Há gente do governo exercendo tráfico de influência. Existem secretários que têm interesse na matéria, tentando convencer vereadores a retirar a assinatura, a influir na composição da CPI”, disse Sandro Almeida. Jalmir Júnior negou que os vereadores queiram usar a comissão para pedir dinheiro ao governo. “Quero deixar um recado: vocês (governo) não vão parar este grupo. Em momento algum nenhum vereador foi pedir dinheiro, como escutamos um secretário dizer”, denunciou.

A CPI vai ter prazo de 90 dias para trabalhar, prorrogável pelo mesmo período. Após isso, será apresentado um relatório na Casa e uma cópia vai ser entregue ao Ministério Público Estadual. “Comprovadas as denúncias, podemos abrir um processo de impeachment”, disse Sandro. “A gente não tem cálculo para mensurar sobre o dinheiro desviado. No portal da Transparência, antes da delação da denunciante, consta que o valor médio de arrecadação era R$ 33 mil. Depois da exoneração, a delatora pedia a devolução da quantia em manutenção do cemitério. O que não acontecia. Ela passou a pedir recibos. A primeira-dama se recusou. Em maio, junho e julho, a média caiu para R$ 23 mil. Com novo administrador, sr. Wilson, a Paolla fez nova denúncia. A média subiu para R$ 94 mil em agosto quando foi feita a denúncia. Ou o povo de São Gonçalo começou a se suicidar ou houve roubo”, concluiu o parlamentar.

Vídeos divulgados pelos vereadores mostram o estado de abandono dos cemitérios de São Miguel, Ipiíba, Pacheco e São Gonçalo. Mato alto, túmulos abertos, caixões quebrados e ossos dentro de sacos de lixo sem qualquer identificação.
Procurada, a prefeitura voltou a ressaltar ter depositado mais de R$ 1 milhão em 12 meses (entre maio de 2017 e maio de 2018), fruto da arrecadação no setor. “Os depósitos continuaram até o mês atual, mais do que o governo passado em 48 meses”, diz a nota. A chefe de Gabinete da prefeitura, Eliane Gabriel, desmentiu as acusações que vem sofrendo e afirma confiar na Justiça. Em virtude do horário, cada cemitério comporta 11 sepultamentos por dia. O atual governo criou, desde 2017, 72 novas vagas no São Miguel, 21 novas no Pacheco, cinco novas no São Gonçalo e cinco novas em Ipiíba, somando 103 novas vagas.

A prefeitura reiterou ainda que em maio do ano passado, a então secretária de Administração, acompanhada pela subsecretária da pasta e pelo subsecretário de governo, compareceram ao gabinete da Promotoria do Ministério Público de São Gonçalo para tratar de questões referentes aos cemitérios. Os secretários reafirmaram sua preocupação, postulando a possibilidade de terceirizar os serviços mediante concessão pública, fato que não teria o MP se oposto, desde que se revisasse a legislação, com previsão, inclusive, de crematórios no município.

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