Clubes nadam contra a corrente

Geovanne Mendes –

Não é de agora que a situação financeira e muita das vezes estrutural dos clubes de Niterói vem agonizando. Para se entender, basta voltar 30 anos na história. O ano 1987, escolhido aleatoriamente, mostra como naquela época ir a um clube social era uma das coisas mais importantes para crianças, jovens e adultos, que lotavam, principalmente durante os finais de semana, as piscinas, churrasqueiras, campos de futebol e quadras poliesportivas. Em contrapartida, a única obrigação era manter em dia as mensalidades das entidades desportivas e sociais. Frequentar um espaço desses era sinônimo de vida social e, acredite, mesmo em uma cidade como Niterói, com dezenas de atrativos naturais, ter um título de um clube concedia status às famílias.

Os anos de 1990 trouxeram a explosão demográfica e urbana, fazendo com que modernos condomínios começassem a nascer e, com isso, uma nova forma de morar. Os amplos e diversificados espaços de lazer dos novos prédios começaram a dar dor de cabeça nos presidentes e diretores de clubes, que viram as receitas de seus clubes caírem ano a ano. Prova disso é o pequeno Barradas Social Clube, fundado em 1963 no Barreto, na Zona Norte, que possuía 300 sócios, mas em meados de 1990 teve que fechar as portas, reabrindo 20 anos depois por decisão de membros saudosistas que não se conformavam com o fechamento do espaço.

“O Clube Barradas sempre foi humilde, nunca tivemos nada demais, apenas um salão de festas, mas que era super frequentado. Com os novos condomínios surgindo na cidade, com salão de festas próprio, os nossos eventos simplesmente desapareceram. Há cinco anos retornamos, reformamos o salão e estamos tentando sobreviver”, comenta o diretor do clube, Ivan Barbosa.

O caso do Barradas foi apenas uma ilustração para se entender melhor como tudo começou, atingindo primeiro os clubes pequenos. Mas o boom imobiliário foi avançando e na última década teve o seu maior expoente. Agora com piscinas, sauna, churrasqueira e academia, os prédios que brotavam principalmente na Zona Sul da cidade se transformaram em rivais dos clubes. O primeiro a sofrer com o assédio das imobiliárias e construtoras foi o Icaraí Praia Clube, que depois de muitos problemas financeiros não resistiu e deu lugar a um condomínio de luxo. Outro que também cedeu o espaço para o mercado imobiliário foi o Clube Italiano, no Cafubá, Região Oceânica. Durante uma entrevista, o então presidente e fundador, Pietro Polizzo, culpou as grandes infraestruturas dos condomínios como responsáveis pela decadência dos clubes sociais da cidade. “Fica muito difícil sobreviver ao boom do mercado imobiliário com condomínios que oferecem o que há de melhor em lazer”, disse o fundador do clube, que em 2013 tinha apenas 100 sócios pagantes.

Os clubes Marajoara Society, no Fonseca, e Italiano, em Piratininga, são apenas alguns outros exemplos de atividades encerradas, mas ao que tudo indica essa lista tende a aumentar. O Fluminense Atlético Clube, no Centro, é um exemplo de investidas intermináveis de imobiliárias. Apesar dos cerca de 180 sócios, o clube buscou alternativas, como a criação de um estacionamento rotativo e aluguel de espaço para uma antena de telefonia celular, para conseguir se manter de portas abertas e não encerrar uma história que remonta o ano de 1913.

Situação complicada vive o Clube de Regatas Icaraí, no bairro homônimo, que desde 2014 se vê enrolado em uma disputa judicial, que definirá se a administração poderá ou não vender o imóvel para uma construtora. Na época especulava-se que o prédio já havia sido vendido por R$ 40 milhões, o que foi negado pela administração. Fundado em 1895, o Regatas chegou a ter 500 sócios nos tempos áureos. Hoje, os 200 sócios pagam uma mensalidade de R$ 200.

Fundado no dia 14 de novembro de 1913, o tradicional Clube Canto do Rio, no Centro, também vem sofrendo com a concorrência dos novos condomínios. Hoje são apenas 600 sócios pagantes e uma dívida que dobrou em quatro anos, hoje chegando aos R$ 5 milhões.

A Associação David Frischman de Cultura e Recreação (Adaf), que fica em Icaraí, possui 70 sócios e, para evitar que a manutenção do espaço gerasse dívidas, há 35 anos é feito um arrendamento da estrutura para uma academia, tática essa utilizada também pelo Clube Sociedade Hebraica, no mesmo bairro, gerando renda e garantindo com que esses clubes permaneçam ativos para os seus poucos sócios, principalmente nos finais de semana. Outro espaço que também reaproveitou o seu espaço foi o tradicional clube Hípico Fluminense, que desde 1997 arrendou os seus 2000 mil m² para uma clínica de equoterapia.

Quem também se mantém no mercado, apesar da crise financeira, é o Fonseca Atlético Clube, tradicional espaço com mais de 90 anos de fundação. O diferencial do clube é o público, que atrai a classe média, com títulos e mensalidades baratas e fáceis condições de pagamento. O título da unidade custa R$ 1.400 e pode ser parcelado. Enquanto as prestações estão sendo pagas, o sócio fica isento do pagamento de mensalidades, que custam R$ 75. Mesmo assim, o clube, que já teve mais de 1 mil sócios na década de 70, hoje tem cerca de 300.

O CSSEERJ é mantido por oficiais do Exército, no Barreto, foi fundado em 1995 e possui atualmente cerca de 300 sócios. O local recebe festas e shows em seu espaço, com capacidade para duas mil pessoas e que custa R$ 2.800 o aluguel.

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